"De resto, sabeis o que vou dizer-vos? estou persuadido de que nós outros, homens do subsolo, devemos ser mantidos na trela. O homem do subsolo é capaz de permanecer silencioso no seu subsolo durante quarenta anos; mas, se sai do seu buraco, ele desabafa, e então fala, fala, fala..."

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O mundo é um moinho

...Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida

Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés

Cartola

Lautrec, Jane Avril Leaving The Moulin Rouge. 1892.

sábado, 10 de abril de 2010

"Tenho olheiras, porém o que mais me surpreende é o meu olhar: impossível, desiludido de tudo, nenhuma esperança de luz, nem o mais tênue clarão, velho, morto.
Meus cabelos ruivos, brilhantes e crespos, são a única massa viva, como se não pertencessem a este rosto, a estes olhos."

Régine Deforges, O Diário Roubado. 3 ª edição, Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.

André Derain: Mulher de Combinação, 1906. 1 x 0,81 m. Copenhage, Statens Museum for Kunst.



quinta-feira, 1 de abril de 2010

"Por causa disso, Felix achava dolorosa sua presença e, ainda assim, uma felicidade. Pensar nela, visualizá-la, era um extremo ato de vontade; recordá-la quando já havia partido, entretanto, era fácil como a memória de uma sensação de beleza, sem seus detalhes. Quando ela sorria, o sorriso estava apenas na boca, e algo amargo: o rosto de um incurável que ainda não foi atingido por sua enfermidade."
Djuna Barnes, No Bosque da Noite. São Paulo: Códex, p. 61.


quarta-feira, 31 de março de 2010

"Eu estava me saindo bastante bem, até você aparecer e virar minha pedra com um chute, e lá fui eu, pleno de limo e de olhos."

Djuna Barnes, No Bosque da Noite. São Paulo: Códex, 2004.




domingo, 28 de março de 2010

"Vós me perguntareis por que eu me torturava, por que me deslocava assim? Resposta: porque me aborrecia demais permanecer de braços cruzados; eis aí por que me entreguei a essas contorsões. Era assim, asseguro."

"Eu imaginava aventuras e criava para mim uma existência fantástica para viver de um modo ou de outro. Quantas vezes, por exemplo, cheguei a me ofender, por motivos absurdos, de propósito: sabes bem, tu mesmo, que não há por que se zangar, e que te excitas a frio, mas te aqueces a tal ponto que chegas finalmente a te encolerizar sinceramente. Tive sempre o gosto por estas histórias. Tanto e tão bem que finalmente perdi todo o poder sobre mim mesmo."

Dostoiévski, Memórias do Subsolo. São Paulo: Círculo do Livro, p. 29. (Ambas as citações)

sexta-feira, 26 de março de 2010

The Origin of Love


Composição: Rufus Wainwright

When the earth was still flat
And clouds made of fire
And mountains stretched up to the sky
Sometimes higher
Folks roamed the earth like big rolling kegs
They had two sets of arms
They had two sets of legs
They had two faces peering
Out of one giant head
So they could watch all around them
As they talked; while they read
And they never knew nothing of love
It was before the origin of love
The origin of love

And there were three sexes then,
One that looked like two men
Glued up back to back
Called the children of the sun
And similiar in shape and girth
Were the children of the earth
They looked like two girls rolled up in one
And the children of the moon
Were like a fork shoved on a spoon
They were part sun, part earth, part daughter, part son

The origin of love

When the gods grew quite scared
Of our strength and defiance
And Thor said "I'm gonna kill them all with my hammer
Like I killed the giants"
But Zeus said "No
You better let me use my lightning like scissors
Like I cut the legs off the whales
And dinosaurs into lizards"
Then he grabbed up some bolts
And he let out a laugh
Said "I'll split them right down the middle
Gonna cut them right up in half"
And the storm clouds gathered above
Into great balls of fire.

And then fire shot down from the sky in bolts
Like shining blades of a knife
And it ripped right through the flesh
Of the children of the sun and the moon
And the earth
And some Indian god sewed the wound up
Into a hole
Pulled it 'round to our bellies
To remind us the price we pay
And Osiris and the gods of the Nile
Gathered up a big storm
To blow a hurricane
To scatter us away
Flod up in the rain
A sea of tidal waves
To wash us all away
And if we don't behave
They'll cut us down again
We'll be walking around on one foot
And looking through one eye

The last time I saw you
We had just split in two
You were looking at me

I was looking at you
You had a way so familiar

But I could not recognize
'cause you had blood in your face
And I had blood in my eyes
But I could swear by your expression
That the pain down in your soul

Was the same as the one down in mine

That's the pain

That cuts a straight line down through the heart

We call it love

So we wrapped our arms around each other
Trying to shove ourselves back together
We were making love
Making love
It was a cold dark evening such a long time ago
When by the might hand of Jove

It was a sad story how we became

Lonely two-legged creatures

It's the story
The origin of love

That's the origin of love.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Verlaine e Rimbaud morrem no hospital, Van Gogh e Toulouse-Lautrec vivem algum tempo internados em hospitais de loucos, e a maioria passa a vida em cafés, music-halls, bórdeis, hospitais ou nas ruas. Destroem tudo que nêles existe e que podia ser "util" à sociedade, e voltam-se também contra tudo que dá permanência e continuidade à vida, e até contra eles mesmos, como se desejassem obstinadamente exterminar tudo que na sua prórpia natureza há de comum com os outros."Estou me matando", escreve Baudelaire numa carta em 1845, "porque sou inútil para os outros e um perigo para mim próprio". Mas não é apenas a consciência da sua própria infelicidade que o absorve, mas também o sentimento de que a felicidade dos outros é qualquer coisa banal e vulgar. "Você é um homem feliz", escreve noutra carta posterior aquela. "Lamento-o, por ser feliz tão facilmente. Devemos afundar-nos bem, se quisermos considerar-nos felizes".

A. Hauser, História Social da Literatura e da Arte, p.1074.

Henri de Toulouse-Lautrec. Portrait de Vincent Van Gogh. 1887. Pastel sur carton, 54 cm x 45 cm. Holanda, Van Gogh Museum.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Vidas, Amores e Guerras

François Boucher. Júpiter e Calisto. 1744. Óleo sobre telas, 72 cm x 98 cm. Puschkin Museum, Moscou.

O que passou e o que virá
Se irmanam em cruz no coração
Pois quem ardeu ao sol de uma paixão
Sabe renascer das cinzas da solidão

Deixa eu te tomar entre os braços
E ir aos jardins do céu, que o arcanjo zelou
Quero ouvir romanças dos lábios teus
Como flores que o tempo não levará, porque não são daqui.

Marcus Viana
"Corpo e alma vergam
Se os anos pesam demais
No coração."

Marcus Viana


Edgar Degas. L'absinthe. 1876 . Óleo sobre tela, 92 cm x 68 cm. Musée d'Orsay, Paris.

domingo, 21 de março de 2010

"Embora a minha dualidade fosse tão profunda, não me sentia um hipócrita, porque os meus dois rostos eram totalmente verdadeiros. Eu era o mesmo quando, abandonando toda a moderação, me atirava para os braços da desonra, ou quando, trabalhando à luz do dia, promovia a ciência para aliviar a dor e o sofrimento."

R. L. Stevenson, O Médico e O Monstro. 2ª edição. São Paulo: Ática, 1993.


"Recebo essas palavras como uma pancada. Imundo o meu amor por Mélie? Nojento o seu amor por mim? A cabeça põe-se a girar. Volto vacilante para a cama. Não vejo em que nosso amor é mais sujo, mais nojento que o deles. Não compreendo. Será que é apenas porque somos duas jovens que isso os incomoda tanto? Chego à conclusão de que é muita discussão para pouca coisa. Que importa o sexo, se as pessoas se amam? Intenso desejo de rir me domina. Enfio a cabeça sob o travesseiro para abafar esse riso nervoso."

Régine Deforges, O Diário Roubado. 3 ª edição, Rio de Janeiro: Editora Record, 1998. Pgs. 37-38.
"Não lhe resta então mais nada a fazer, evidentemente, a não ser abandonar tudo, simulando desprezo, e desaparecer vergonhosamente no seu buraco. E lá, num sujo e lamacento subterrâneo, nosso ratinho, insultado, batido e escarnecido, lentamente mergulha na sua raiva fria, envenenada e sobretudo inesgotável. Durante quarenta anos ele se lembrará do insulto sofrido, em todos os seus pormenores mais vergonhosos, acrescentando-lhes de cada vez outros mais vergonhosos ainda, excitando-se malvadamente, atiçando-lhe a imaginação. Ele mesmo terá vergonha, mas evocará todas as minúcias, passará em revista uma a uma todas as circunstâncias, inventará mesmo outras, sob o pretexto de que elas teriam podido acontecer, e não perdoará nada."

Dostoiévski, Memórias do Subsolo. São Paulo: Círculo do Livro, p. 24.