"Não lhe resta então mais nada a fazer, evidentemente, a não ser abandonar tudo, simulando desprezo, e desaparecer vergonhosamente no seu buraco. E lá, num sujo e lamacento subterrâneo, nosso ratinho, insultado, batido e escarnecido, lentamente mergulha na sua raiva fria, envenenada e sobretudo inesgotável. Durante quarenta anos ele se lembrará do insulto sofrido, em todos os seus pormenores mais vergonhosos, acrescentando-lhes de cada vez outros mais vergonhosos ainda, excitando-se malvadamente, atiçando-lhe a imaginação. Ele mesmo terá vergonha, mas evocará todas as minúcias, passará em revista uma a uma todas as circunstâncias, inventará mesmo outras, sob o pretexto de que elas teriam podido acontecer, e não perdoará nada."
Dostoiévski, Memórias do Subsolo. São Paulo: Círculo do Livro, p. 24.